Compilação homenageia São Paulo com boa música
24 de janeiro de 2004 15h06

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Detalhe da capa do CD  São Paulo e a Lua Foto: Reprodução/Divulgação

Detalhe da capa do CD São Paulo e a Lua
24 de janeiro de 2004
Foto: Reprodução/Divulgação

Daniela Castro
São 10,5 milhões de habitantes, 400 mil empresas, 10,8 mil estabelecimentos de ensino, 1.300 agências bancárias, 265 salas de cinema, 92 teatros, 70 museus, 12 mil restaurantes e cinco milhões de veículos circulando por mais de 55 mil cruzamentos. Os números, por si só, já dizem muito sobre São Paulo, maior cidade da América Latina e quarta do mundo, que completa neste domingo 450 anos de fundação. Depois das estatísticas, talvez a música ocupe o primeiro lugar na tentativa de retratar a caleidoscópica capital paulista. Um punhado dessas manifestações de amor ou ódio à cidade está no CD São Paulo e a Lua, lançado pela Lua Discos, numa iniciativa que comemora também os cinco anos da gravadora.

"A idéia era gerar um painel multifacetado que expressasse a alma cultural de São Paulo", disse, em entrevista ao Folha da Bahia, o músico Thomas Roth, diretor da Lua Discos e idealizador do projeto, que foi acolhido pela prefeitura como um dos documentos oficiais das comemorações deste ano. De fato, dizer que São Paulo e a Lua é um disco eclético parece pouco. Bem ao estilo paulicéia desvairada, a coletânea reúne 18 músicas numa salada que mistura valsa, bolero, samba, reggae, rock e balada. Entre os intérpretes, todos do cast da gravadora, também impera a diversidade de estilos. Artistas da velha-guarda como Ângela Maria, Jards Macalé, Guilherme de Brito e Moacyr Luz estão ao lado de nomes recentes como Moisés Santana, Virgínia Rosa, Maurício Pereira e Rebeca Matta, além de outros menos familiares, a exemplo de Isabêh e Rodhanna.

O set de autores é outro caldeirão de gêneros. Além do mais que paulista Adoniran Barbosa, que teve três canções regravadas (Saudosa Maloca, Samba do Arnesto e Trem das Onze), aparecem na lista compositores como Paulo Vanzolini (Ronda), Geraldo Filme (Tradição), Tom Zé (São São Paulo - Angusta, Angélica e Consolação), Caetano Veloso (Sampa), Gilberto Gil (Punk da Periferia), Billy Blanco (Tema de São Paulo/Amanhecendo), Eduardo Gudin e Costa Netto (Paulista). O próprio Thomas Roth também assina uma faixa do disco, São Paulo (Coração do Tempo), composta em parceria com Luiz Guedes. A voz, no entanto, ele preferiu emprestar a São Paulo, São Paulo, do grupo Premeditando o Breque.

Roth, que nasceu no Rio mas mora em São Paulo desde os 5 anos, canta o caos da fauna urbana que acolhe ao mesmo tempo "a japonesa loura" e "a nordestina moura", e não hesita em declarar seu amor à capital paulista. "É a cidade que me adotou e que eu adotei numa reciprocidade absoluta. Aprendi a entender e a amar toda essa loucura", diz. Mas não só de amor vive a relação entre Sampa e a música brasileira. O emaranhado sonoro de São Paulo e a Lua celebra também o caos, a dureza arquitetônica, a poluição, a violência e a solidão, além do famigerado jeito workaholic de ser do paulistano.

O disco São Paulo e a Lua mostra, sobretudo, que a reverência à metrópole onde tudo acontece não move somente os filhos da terra. O sambista Moacyr Luz participa do disco trazendo seu sotaque carioca para o clássico paulistano Samba do Arnesto. "Eu, do meu jeito, com meu samba mais contido, me senti muito honrado em participar com essa faixa", conta. Moisés Santana, baiano de Catu que há 13 anos fincou raízes em Sampa, aproveitou para brincar com os arranjos e transformou numa balada eletrônica a São São Paulo, composta por Tom Zé em 68. Moisés ainda comemora a participação de Rubens e Beto Nardo, vocalistas da Tuttifrutti, na faixa que escolheu cantar. "Todas as bandas que eu gostava quando morava em Salvador eram de São Paulo. A Tuttifrutti era uma delas", recorda.

Outra baiana que não pensou em recusar o convite para homenagear São Paulo foi Rebeca Matta, que ofereceu roupagem nova a outra canção de Tom Zé, Augusta, Angélica e Consolação. "O próprio Tom me escreveu dizendo que eu fiz subir a letra da música", exulta. Os nascidos em território paulistano curiosamente são minoria em São Paulo e a Lua. Entre eles está Virgínia Rosa, que entoa uma versão intimista de Sampa. "Caetano conseguiu dizer o que é São Paulo de forma muita apropriada. É a cidade que te dá oportunidades mas também te oprime, tem sempre os dois lados da moeda", avalia. São Paulo e a Lua, porém, sugere que se pode ler sob muito mais que dois olhares o caos da babel paulistana.

Correio da Bahia
 
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